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Almas velhas

Slow living, tal como a vida deve ser, com base na vivência com um marinheiro, uma saudosa alma velha que mudou a minha.

26 de Setembro, 2017

Quando temos tudo, temos tudo a perder.

Monica

Depois do portão de ferro havia um quintal. Com chão de pedras brancas irregulares e uma escada. Sei que o quintal era grande o suficiente para fugir de ti e tu fingires que não me conseguias apanhar.

Eu sabia a bondade que havia em ti. Desde que nasci que cuidavas de mim e nunca precisaste de dizer nada e eu precisei que me dissesses.

Eu sei que eras amigo do outro rapaz que vivia conosco. Sei que a mãe dividiu a casa com a amiga porque não dava para pagar a tua escola e a minha. 

Lembro-me da mãe me deixar no carrinho a dormir porque estavas ali. E se estavas perto, podia adormecer descansada que mesmo que acordasse com o mundo em chamas, tu estarias a dar-me a mão.

Lembro-me de acordar e querer ir brincar contigo. Como sempre. E sei que o outro rapaz não deixou e obrigou-te a prender-me no carrinho. Eu vi o teu olhar de culpa e lembro-me tão bem desse olhar que ainda hoje me parte o coração. Olhares daquela maneira como se tivesses a pedir desculpa, pelo que ias fazer, para ganhares um amigo. Eu chamei por ti mas não queria que te sentisses culpado, queria que soubesses que percebo. E estar presa no carrinho não é nada confortável. Chamei-te para te dizer que não me intrometo enquanto brincares com ele. Mas prendeste-me. 

Vi-te afastar enquanto ele te levava aos empurrões. E quando te foste embora eu tentei soltar-me. 

Não sei quanto tempo estive a tentar sair mas lembro-me de olhar para cima e ver-te a desprender-me do raio do carrinho e a pedires desculpa como se tivesses feito a pior coisa do mundo. 

Desprendeste-me e saiste a correr. 

Fiquei no carrinho na mesma para não te meteres em trabalhos. Brinca lá à vontade com ele. 

Sei que foste o melhor irmão que podia haver. E que tens o coração do tamanho do mundo. 

Mas obrigada por me salvares sempre.

Por me teres desprendido.

Por pedires desculpa.

E por teres traduzido todo o episódio dos simpsons para mim, nessa noite, sem que te chateasses comigo porque estava a atrasar e não percebeste metade do episódio.

Eu sei que inventaste metade das falas, mas obrigada por isso. 

 

 

26 de Setembro, 2017

Mundo cruel, este.

Monica
Não sei de onde saiu o julgamento que as pessoas fazem umas das outras. Foi ensinado?
Já vos apontaram o dedo então querem vingar-se noutras pessoas?
Quando andava na escola primária, não havia a palavra bullying. Na verdade havia, mas ninguém arranjava nomes para a falta de educação e de conhecimento, como se fosse uma doença ou um crime.
Tal como não sabia o que era, não considero que tenha sofrido de tal mal.
Os miudos conseguem ser cruéis, mesmo com coisas que não existe mal nenhum. Como toda a gente, querem sentir-se melhor que os outros e controlarem algo. Na verdade, ainda não sei de onde vem esse desejo humano que em vez de enaltecer alguém pelos seus feitos, rebaixam e condenam. 
Eu nunca me aborreci se os miúdos não queriam brincar comigo. Ficava a observar. O que me frustava é que nunca havia uma explicação.
Posso brincar? Não. Porque? Porque não.
Porque não. Esse porque não frustava-me. Porque não? Conseguem ensinar uma criança a ser egoista mas nunca a dizer o que tem a ser dito. Porque não quero brincar contigo. Não me apetece. Não acordei para aí virado. Pronto. Era injusto mas eu percebia. Mas o porque não?
 
Acho que nunca mudei. A pessoa que sou sempre o fui, mas mais envergonhada. Não queria dizer o que pensava ou o que sentia. Não me lembro quando desbloqueei essa parte mas acho que dizer realmente o que pensamos sabe pela vida. 
Não faço má cara e digo que está tudo bem. Quem não me conhece diz que sou bruta e insensivel e quem me conhece sabe que sou o mais sincera possivel. Mas na verdade, eu não quero saber da opinião das pessoas. Acho que as pessoas se preocupam demais com a vida dos outros, em vez de melhorarem a própria. 
 
Estou numa fase de mudança. Ao meu ver, estamos sempre em constante evolução. Decidi voltar a treinar. Mas voltar a treinar a sério. Na escola, sempre fiz desporto. Mesmo depois de sair da competição do atletismo, puxei ainda mais por mim, e fui militar e, como tal, fiz treino militar. Acho que ainda não sei onde é o meu limite. Nesses treinos, parecia sempre que não aguentava mais...até concentrar-me e aguentar. E até hoje não sei qual é mesmo o meu nível de "não consigo mais". 
Decidi voltar a treinar por mim porque sinto falta. Chamem-me maluca, mas sinto falta das dores, do cansaço, do alivio e daquele estado em que terminamos cansadas mas felizes. Sinto falta de correr quilómetros e entrar num transe que só oiço a respiração. 
Sinto que estou numa fase de mudança. Mudar alguns hábitos que me fazem viver o dia da melhor maneira, mais aliviada, mais feliz. 
 
Acima de tudo, estou a mudar o meu estado mental. Há certas coisas que me irritam facilmente: falta de civismo. Cinismo. Falta de cordialidade. Falta de humor. Pior, tudo isso, no trânsito. Faço cerca de 30km para chegar ao trabalho. Como devem calcular não é fácil fazer 30km de manhãzinha sem me irritar. O que não percebo é porque as pessoas não aplicam a bondade e a boa disposição. Exigem mas não praticam. Sorrir, deixar passar, olhar nos olhos, ajudar, ceder... gostam que os outros o façam mas não gostam de fazer. 
 
Queria contar-vos uma história. Mas na verdade nem sei como começar. Sinto que a humanidade não tem humanidade. É preciso haver leis para haver cedências. É preciso haver restrições para as pessoas não se matarem umas às outras. É preciso haver proibições para que os outros tenham liberdade.
 
É triste ter de impor a lei para uma pessoa que precisa de assistência, poder entrar com o seu cão, que a assiste, em espaços públicos fechados. 
É triste ter de ser imposta lei para grávidas, idosos e incapacitados se possam sentar em transportes públicos ou terem prioridade a ser atendidos.
É triste ter de haver coima para qualquer pessoa que ponha o carro num lugar para deficientes. E mesmo assim, estacionam lá, e ainda reclamam. 
 
Não sei quanto a vocês, mas eu ando triste com o mundo. E como faço com as pessoas que me tiram a paz, eu afasto-me. Afasto-me do que me faz mal. E apetece-me afastar do mundo e construir a minha cabana no meio do mato. E ficar em paz. 
17 de Setembro, 2017

I'm the nicest rude person ever.

Monica

Depois de receber um email de um leitor (esta palavra é tão má!) - de uma pessoa que leu o blog e gostou (vamos experimentar assim!) e de falarmos um pouco, apercebi-me que não estou a passar a pessoa que sou. A pessoa que me escreveu diz que sentiu a vibe de quem eu era, nos posts das estórias, mas completamente diferente nos outros posts.

Então decidi citar aqui alguns factos sobre mim (30 parece-me um número razoável):

1. Sou balança. Tenho os dois lados - indeciso e decidido - às vezes em simultâneo.

2. Não gosto de pessoas novas. Converso e partilho mas não confio.

3. Adoro o cheiro a mar.

4. Sou a pessoa mais sarcástica que conheço.

5. Tenho um humor negro.

6. Não tenho paciência para mimimis.

7. Adoro mandar bitaites. Numa conversa se me lembro de algo a meio, eu digo. Mesmo que não seja adequado.

8. Se vejo que algo pode ser melhorado (do meu ponto de vista) dou sempre a minha opinião mesmo que não peçam.

9. Tenho 4 tatuagens (ainda).

10. Ser militar é um dos sonhos que concretizei - passar por toda a experiência.

11. Odeio pessoas que não cumprem o código da estrada (esqueçam lá a cordialidade, estou a falar de piscas, parar em stops, passar traços continuos)

12. Antes de tirar a carta, não pensava em tirar a carta. Hoje tenho todas.

13. Gosto de andar de patins.

14. Gosto de desafiar o meu corpo e saber onde é o meu limite (exercício fisico por exemplo)

15. Gosto de design de interior. Podia passar horas a planear decorar uma casa.

16. Desenho. Não tanto quanto gostaria.

17. Sou bastante direta quanto me pedem a minha opinião (normalmente não gostam dela).

18. Tenho a minha organizada. Quando vou a um jantar por exemplo, não cedo a "vá lá, vamos sair só hoje", se eu não tiver planeado isso.

19. Estudo sempre na véspera dos exames.

20. Gosto de ler e descobrir coisas como funciona o corpo humano. Em temos de ADN e assim.

21. Gosto de ler romances.

22. Adoro séries de sobrenatural (vampiros, bruxas, lobisomens)

23. Privilegio a comida caseira, mas adoro molhos e coisas que não fazem nada bem.

24. Adoro marisco.

25. Os meus olhos são castanhos. Com o sol e com água salgada ficam esverdeados.

26. Nunca pintei o cabelo.

27. Derreto-me com todos os animais.

28. Sonho morar no meio de uma floresta, numa casa isolada do mundo.

29. Não consigo conduzir sem música.

30. Adoro amarelo. Tudo o que é amarelo. Mas não consigo vestir nada dessa cor.

Se se lembrarem de algo mais, perguntem :)

17 de Setembro, 2017

Chapters & Scenes

Monica

Quando comecei este blog (fiz a transição do wordpress para esta comunidade à pouco tempo) não era com o intuito de me juntar a ninguém. Queria escrever e ter algum compromisso com algo meu, com algo pessoal. E escolhi a coisa que me dá mais dificuldade: quebrar hábitos. Na verdade comecei por falar de hábitos, mudar de hábitos, mudar de vida e nas mudanças em geral. Do corpo, da saúde, do espaço que nos envolve. Comecei a perceber que não era suficiente. Eu continuo a escrever para ninguém em especial e para toda a gente. Mas ultimamente, senti a necessidade de me expor. De contar a minha história, os meus valores, através de flashbacks (podem ver na tag - estórias). Estas histórias vão sendo contadas com a idade que eu tinha, coisas que me lembro e que tenho a certeza que mudaram a minha visão do mundo, de quem me tornei e para quem quero mudar.

Já quebrei alguns hábitos. Mas nos últimos 2 anos tem sido os mais difíceis: mudar de vida (de trabalho), de morada, avançar nos estudos. Conciliar a minha vida e as minhas atividades. Não tem sido fácil. Por vezes este compromisso de vir escrever torna-se mais difícil do que pensava e depois surgiu a oportunidade de me juntar ao projeto: Chapters & Scenes. Para mim este projeto é um compromisso que tenho com o meu blog. É fazer parte de uma comunidade, é comprometer-me em ler um livro sobre um assunto e/ou ver um filme que encare o assunto a discutir nesse mês.

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Acho que vai ser um desafio para mim; não só a nível de me comprometer com o blog mas para me organizar (falo tanto disto, organização é o início de toda a mudança). O primeiro post deste projeto sai já no início de outubro. Entretanto deixo-vos aqui um sneak peek do que vou falar. Depois conto-vos a perspetiva.

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14 de Setembro, 2017

A vida funciona

Monica

A vida anda às voltas e nem sempre sabemos o que queremos seja em termos de trabalho, de vida ou até do que queremos para jantar. É mais fácil haver alguém por perto a dizer "segue aquele caminho" mas claro, que nem sempre é possível. Até porque não é assim que a vida funciona.

Eu tenho o hábito de fazer uma playlist de várias músicas e ouvir até à exaustão. Mas a minha exaustão é infinita. Não sei exatamente quanto tempo dura, mas a playlist que tenho no iPod já está lá há 3 anos. Ponho a lista a tocar seguida, por artistas, em shuffle mas são a minha playlist do momento.
Então e o momento dura 3 anos? Pode durar. Há hábitos que não mudam.

Já me apercebi que faço a lista conforme o que estou a passar no momento. Ou em algo que ando a passar. Ou simplesmente porque a melodia soa-me bem e um dia, simplesmente, deixa de soar, ou o momento encerrou. Isto tudo porque dei por mim a ouvir uma série de música com que me identifico e uma em especial que, brutalmente e maravilhosamente, caracteriza a minha infância. Deixo por aqui a música, caso estejam interessados ouvir.

Basicamente, ao ouvir estas músicas que mexem e levam-nos a sítios que já estivemos, dei por mim a pensar onde já estive. Poderia ficar aqui a contar-vos a minha história mas não havia espaço nem eu tenho tempo. Podem ir às minhas estórias e ver passagens, mas o que interessa é que percebi que, a maior parte das coisas que idealizei, concretizei. São nestes momentos que realmente nos apercebemos que a vida funciona.

 

O que já fui?

 

Já fui muita coisa. Já trabalho desde dos 16 anos mas as melhores coisas e quis e fui atrás. Porque percebi que a vida funciona.

Já fui atleta de alta competição. Competi em decatlos e especializei-me em barreiras, ainda era escalão júnior. Eu queria, inscrevi-me, fui às provas e consegui. Devido a problemas familiares e a uma lesão no joelho, acabei por deixar de lado.

Fui militar (na verdade ainda sou). Acabei por alcançar isso. Um bichinho que vivia em mim desde pequena, que se tornou realidade. Quando nos apercebemos que realizamos as coisas é mais do que o nosso coração aguenta. Eu oiço um toque de caixa ou a música da marcha de cerimónia e ainda me arrepio. Eu vejo a cerimónia do dia de Portugal na televisão e queria lá estar ainda. Porque é um sentimento maior que nós próprios. Andei perdida durante um tempo e agora segui o meu caminho numa área que também adoro: o marketing digital. Porque a vida funciona.

Nós temos o hábito de procurar aprovação. E dou por mim a pensar: mas porquê? Eu queria estar ali e fui. Eu quis ser mais e conseguir chegar onde muitos estão e fui e, o mais importante, consegui.

Gostava de saber o que prende as pessoas a não fazer certas coisas. Coisas que lhes ponham um sorriso na cara e um pulmão cheio e digam: "isto é mais do que estava à espera."

Hoje vejo que a maior parte dos obstáculos são criados por nós. Quebrem os hábitos, pensem e planeiem como quiserem: a pequeno, médio ou longo prazo. Mas façam. Não há nada que não possamos fazer.

 

A minha motivação

Posso dizer-vos que não sei o que me move. Não sou religiosa. Não tive uma infância tipica nem uma relação "normal" com os meus pais. Fui criada com o meu avô. E não sei onde vou buscar as minhas forças. Não acredito num Deus, seja ele qual for.

Depois de passar pela vida e pelo treino militar, percebi que ainda não sei onde é o meu limite. Havia coisas no treino que pensava que não aguentava mais e daí surgia-me o pensamento que outros conseguiram. E aguentei mais um pouco e cheguei ao fim. E foi um alivio não ter desistido. Acho que é essa sensação que muitos não tem. E gostava de tentar passar isso. Gostava que soubessem que a vida vale a pena, que ela realmente funciona mas que temos que estar sempre a lutar. É cansativo? Um dia deixa de ser, porque torna-se um hábito.

 

A vida funciona

Estás onde gostarias de estar? Porquê?

Gostaste do resultado de quando desististe? Porquê?

Gostaste do resultado quando alcançaste? Porquê?

 

A minha religião

 

Como já mencionei em alguns momentos, não sou católica. Quando nasci os meus pais não me batizaram. A desculpa que davam era que queriam que eu escolhesse a minha religião e eu gostava dessa opção mas nunca foi verdade. A vida funciona de maneira diferente para eles e de maneira a que nunca passasse pela minha. Mas fui batizada ao 9 anos, meses antes de fazer a primeira comunhão. Devo dizer que nunca me satisfez o facto de estar ou não nunca igreja ou fazer parte disso. Nunca acreditei simplesmente.

Eu acredito que as pessoas podem fazer o bem. E que onde vivem, como vivem e o como moldam o mundo à volta delas é o que as influência a fazer o bem ou o mal. A questão é que cada um tem uma definição de bem ou mal diferente uma das outras.

Eu acredito que devemos sempre ajudar os outros. Facilitar a vida, dar-lhes um sorriso e esperança. Mas também sigo a minha filosofia de que ninguém tem nada a ver com as minhas decisões e com a minha vida. Sempre soube usar a minha independência e sempre teve um significado muito importante para mim. Mais que fé. Acredito que a opção de escolha é o que nos une. E que cada um deve fazer o que quer conforme o que acredita.

Há por aí alguma religião assim? Se há, sou disso.

Torno a falar de hábitos. Já é uma palavra tão comum para mim. Mas eu habituei-me à vida e gosto cada vez mais dela. Mas ela anda como eu quero, até não a controlar mais. Mas até lá, é minha.

14 de Setembro, 2017

Livros e finais felizes

Monica

- ‘tás fazendo?

- A ver as estrelas. Porqué’que o pai e a mãe nã ficam?

- Nã sei. Eles é que sabem. Mas se ficassem ‘távas agora a ver as estrelas?

- Calhando. Nã sei.

Nunca foi preciso muito para um homem de 74 anos, de olhos azuis e sozinho rasgado, dar uma vida certa a uma criança de 5 anos. A cumplicidade que existia, as respostas secas, rápidas e certeiras que ele dava, fizeram dessa criança, uma mulher com certezas e liberdade em todos os aspetos.

Eu gostava da escola. Principalmente depois de saber ler. E adorava devorar livros e estórias de finais felizes. Porque as coisas precisam de terminar bem. Além disso, os livros eram os únicos que eram bons para mim. Os miúdos da minha idade decidiram que não viver com os pais era algo abominável. Que não sabiamos usar as coisas, nem nos vestir nem brincar. Algumas vezes a escola era horrível, mas os livros valiam a pena.

Quando chegava a casa, qualquer pensamento da escola não prevalecia. Ia brincar, desenhar, pintar, correr, andar de bicicleta e até andar descalça na terra enquanto o avô apanhava batatas ou fazia uma outra coisa que fazia crescer coisas para comermos. Mas por vezes tinha de partilhar com a minha pessoa favorita.

- Oh vô, porque é que não fizeste um prédio com tv por cabo e varanda?

- Queres varanda melhor qu’ésta? E fazia um prédio pra quê? Subir escadas?

- Nã sei… estão sempre a gozar comigo porque moro aqui e não tenho as mesmas coisas que eles.

- Qué’que nã tens? Passas fome? (- Não.) Passas frio? (-Não.) Nã tens com o que brincar? (- Tenho.) Então?

- ‘Sê cá! Eles deixam-me triste quando dizem que nã tenho nada.

- Faz-me lá uma lista do qu’éque nã tens.

- Então já tens a lista?

- Já.

Nunca me lembro do que os outros tinham e eu não. Até porque realmente não sabia qual era a diferença. Entrego-lhe a lista e o meu avô lê.

- Nã tens mais lápis de cor?

- Tenho. Mas tão pequeninos. Ah, e nã tenho autocolantes. Lá na escola eles tem autocolantes nos cadernos.

- Valha-me… ‘Tá bem. Amannhã vamos comprar lápis. Onde é que compro autocolantes?

- Nã sei. Calhando na papelaria também.

- Quando te faltar alguma coisa diz-me. Mas quero que faças outra lista. Quero saber o que tens que se perderes, te faça realmente falta.

Depois de jantar:

Lista pró vô

- Vô

- Pitucha

- Mano

- Casa

- Cisterna

- Damasqueiro

- Peixe, carne , comida e água

- bicicleta

- Livros que tenho

Quando entreguei a lista, o meu avô sorriu.

- Não tens nada que os outros não tenham.

***

Hoje quando penso se devo ou não comprar algo, penso no meu avô. Aliás em qualquer circunstância penso nele. E a frase mais importante da minha vida é:

When you have everything, you have everything to lose

E prevalence. Em tudo.

14 de Setembro, 2017

O que nos faz querer seguir em frente?

Monica

Não sei o que nos faz levantar de manhã, mas levantamos e fazemos o que temos a fazer. Ninguém nos ensina a reagir ou a controlar o que está certo ou errado. Simplesmente, sabemos. O que nos faz querer seguir em frente?

Levantei-me e cheirou-me a chouriço frito. O avô já ta levantado. Será que já foi à praça? Olhei para o relógio que tinha na mesa de cabeceira e tentei perceber que horas eram; ainda não sabia ver as horas mas gostava de ver, de tempos em tempos, os ponteiros a mexer e de ouvir as pessoas dizerem "falta um quarto p'rás duas" como é que raio se via isso?
Levantei-me e estava o avô já a comer já o seu chouriço frito com ovos e pão e um copo de vinho. "Ainda não fui à praça, se queres, vai-te vestir e tirar a bicicleta". A minha frase mágica. Se me despachasse e fossemos rápidos ainda podíamos ir aos bolos. Apressei-me o máximo que consegui e peguei na bicicleta. Era um ritual. Não nos falávamos muito mas nos entendíamos muito bem. Acho que era porque o silêncio ser demasiado familiar que não nos preocupávamos a preenchê-lo com palavras. Ainda hoje sou assim, odeio meias palavras. Prefiro que me digam logo o que querem ou estão a pensar. A lenga-lenga dá-me nervos.
Tal como previ, praça significava bolos. É impressionante quando algo nos faz bem e queremos isso, levantamo-nos num ápice.

Chegamos a casa e a avó veio logo toda chateada. Não sei porque é que anda sempre chateada. Nunca sei se é comigo ou com o avô mas às vezes diz coisas que não percebo puto, como se me quisesse dizer alguma coisa. Quando lhe pergunto o que quer ela nunca me diz. Diz que são coisas de adultos. Que porra. Já disse que odeio essa treta das meias palavras?
Ela lá me deu a noticia que vou começar a escola, mesmo tendo cinco anos e que vou para a catequese. Que raio. "Vais aprender coisas e depois vamos à missa." Missa??? Que fiz eu? Juro que não fui eu que estraguei as roseiras.

Catequese. Olhem, digo-vos já que o nome engana. Fartam-se de falar de Jesus e Deus e isto e aquilo mas chateiam-se comigo quando pergunto porque. Isto soa-me aquele filme que o avô estava a ver e quando lhe perguntei sobre o que era, ele disse que era sobre tirarem os pensamentos de uma pessoa e por lá outros. Não me digam.

Vamos lá ver uma coisa. Não foi assim tão mau. Tirando a missa. Adormeci e a avó mandou-me uma cotovelada que fiquei com uma negra. Não devo ter sido só eu, não acredito nisso, então o padre fala como se tivesse posto alfarrobas na boca e ainda não as tivesse mastigado.
No final da missa, a avó mandou-me ir agradecer à catequista (?) (pelo quê?) e quando lá cheguei tivemos uma daquelas conversas que eu gosto de chamar conversinhas da xaxa.
Basicamente, ela perguntou-me porque não acreditava em Deus. Eu perguntei porque ela acreditava e despejou-me ali uma data de teorias que me fez doer a cabeça. Bem, ela disse-me que é Deus que nos dá força e vida e sem ele não estávamos aqui. (Hummm!)

O que achas que te faz levantar de manhã? - O cheiro a chouriço. Porque depois do chouriço vamos à praça e depois da praça passamos na pastelaria. Não, disse-me ela. É Deus.

 

Uns dias mais tarde, fui acordada pelo avô. És Deus? - O quê? Vá, eu não vou à praça, vai buscar a bicicleta e vai buscar os bolos que já estão pagos. Upa!
Adoro o avô. E não precisamos de mais conversas. Tentei falar-lhe de Deus mas ele disse-me logo para não lhe vir com a carochinha que ele dispensa essas coisas. Perguntou-me se acreditava. Disse que não. (E não! mas até gosto das musicas da catequese!)

Quando cheguei aos bolos, perguntei ao Hélder se ele acreditava e se era realmente Deus que o fazia levantar-se de manhã.
Ahahah a tua avó pôs-te na catequese, não foi? Já estava na hora. Não, não acredito. E se Deus me fizesse levantar de manhã ainda estava a dormir. Levanto-me porque tenho que me levantar e fazer os bolos. Senão, não comias bolos! E eu não vivia porque não ganhava nada.

E pronto. O que fazia levantar de manhã, não era Deus. Era o cheiro a chouriço frito.
E que saudades da pessoa que o comia. Todas as manhãs.