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Almas velhas

Slow living, tal como a vida deve ser, com base na vivência com um marinheiro, uma saudosa alma velha que mudou a minha.

28 de Janeiro, 2019

Época errada, amor certo

Monica
Sentem-se. 

Esta história vai ser grande.

 

Quando era pequena, acredito que como todas as pequenas, sonhava com um amor para a vida. Não precisava de vir num cavalo branco. Não precisava de ser um príncipe. Só precisava de ser um amor meu. Um amor que olhasse para mim, por mim, que eu fosse tudo para ele. Sonhava, mas nem sabia o que isso significava.

 

Cresci com um homem que me dizia que escapei uma geração, e que em vez de neta, deveria ser filha. Tratava-me como filha, mas eu chamava-o de avô. Romantizava tanto as coisas que comecei a acreditar quando ele dizia que escapei uma geração e nasci na época errada. 

Cresci e nunca encontrei um amor meu. Andei para trás quando não sentia que era, com algum rapaz e fugia quando sabia que eles estavam na época certa.

Comecei a acreditar a sério nas palavras do meu marinheiro, e comecei acreditar que o amor que era meu também teria de ter nascido na época errada.

 

Conheci-o. Éramos tudo. E aí percebi o que realmente procurava: um amor sincero e seguro que não precisava de palavras para sentir. As músicas que nos descreviam não era do nosso século, ele também estava enganado. Fomos tudo juntos.

 

Eu perdi o meu marinheiro. Ele perdeu o equivalente para ele. Eu enterrei no fundo do meu mar, toda a dor que isso me causou, mas ele não e isso quebrou-nos. Tudo o que ele não conseguia enterrar, desenterrava o meu. Ele foi ao fundo, mas eu não me deixei ir com ele.

Achava que tinha de lutar por mim e por mim apenas. Acabei por perceber que ao que sair do poço que ele se afundava, criei um só meu. Vivi nesse poço durante 7 anos. 

 

Tentei revê-lo em todas as músicas modernas e em todos os lugares reconstruídos, até me relembrar que não pertenço a esta época.

 

Parei, respirei, e decidi que não conseguia amar ninguém que não ele. E quando aceitei isso, tirei-o do bolso, e estava preparada para viver com essa decisão.

 

Mas quando me preparava para lhe dizer a minha decisão, fui com um teatro ensaiado de respostas que guiavam uma conversa imaginária, que não via outro final senão eu a viver sozinha com esse amor no peito, ele chegou e mudou o roteiro. Ele estava no mesmo sítio que eu, enganado certamente, à minha espera. Tirei-o do bolso, falamos durante horas e quando descobri que naquela conversa, 7 anos pareciam 10 minutos, foi quando percebi que o que sentia era mais que certo. 

 

Somos tudo juntos. Como o meu marinheiro acreditava, somos almas antigas. Não precisamos de falar para nos reconhecemos. 

 

Somos nós, somos tudo, estamos a viver na época errada mas o amor certo. 

7 anos. Parece que sofremos uma maldição. 

 

Vamos só certificar-nos que não quebramos mais nenhum espelho. 

 
25 de Janeiro, 2019

Tira-me dos rascunhos

Monica

Vinha aqui escrever sobre a  nova série na Netflix com a Marie Kondo, que não aguentei nem 2 episódios, apesar de ter gostado dos livros e de ter tido alguma influência na minha visão das coisas, mas depois percebi que esse post ficou por aqui, nos rascunhos, durante quase 2 semanas. 

Depois vi um artigo, sobre o número de rascunhos com data de 2018 à espera de serem publicados em blogs SAPO e aí lembrei-me do artigo que tinha nos rascunhos.

 

Normalmente, não deixo nada nos rascunhos. Há ocasiões que deixei porque não conseguia mesmo acabar de escrever, por falta de tempo, mas quando tenho vontade a escrita sai-me e flui, e a função "rascunhos", fica ali, orgulhoso de mim. 

 

Depois lembrei-me que fazemos isso com algumas coisas da vida: queremos fazer, ir, ver e, por alguma razão ou até mesmo sem razão aparente, fica ali pendente, nos rascunhos, a pairar a decisão de fazer ou não. 

 

O mais impressionante é que pensamos imenso sobre resoluções no início de um novo ano, sobre o que andamos a fazer da nossa vida, durante o acontecimento de uma tragédia, mas há decisões que deixamos a pairar no tempo, por causa de...?

 

Penso muitas vezes sobre a minha zona de conforto: o que é, qual é, onde é e se não é mais uma zona de isolamento. Porque não mudamos um hábito, se sabemos que a atitude atual não é a mais saudável; Porque não saimos de uma situação que nos é desconfortável e prejudicial?; Porque temos tanto medo da palavra "não"? 

 

Já senti medo de ir em algumas situações. Já senti medo de aceitar. Já senti medo de mudar. Mas também já fui, já aceitei e já mudei. E por isso, a pensar ainda nos posts dos rascunhos, decidi que se a minha primeira intuição é ir, eu vou. Se é escrever, eu escrevo. Se é lutar por algo, eu luto. 

 

E com isto, gostava de saber, quantas publicações tem vocês em modo "rascunho"? Quantas decisões? 

Quantos livros para ler? Quantos sítios para ir?

 

Quantas pessoas para rever e amar?

 

 

03 de Janeiro, 2019

Para a Mónica de 11 anos

Monica

Vais achar isto estranho mas conheço-te. Conheço as tuas dores, os teus medos, as tuas alegrias, que conheço a tua força. 

 

Tens uma força incrível, que não sabes de onde vem. Tens uma alegria incrível que te ajuda a passar melhor os dias e a ultrapassar tudo o que te falta. Mas eu estou a escrever-te, não para te dizer como vai ser o futuro, porque sei que apesar de curiosa vais querer descobrir por ti, mas para te orientar nas tuas dúvidas e para te dizer que hoje estamos de coração cheio. Que a vida está bem agora e que não faz mal ter dúvidas. Não faz mal baixar os braços. Não faz mal descansar.

 

Escrevo-te para te dizer que, apesar de às vezes te sentires assim, não estás sozinha. Tens o nosso marinheiro que te dá forças cada vez que os seus olhos azuis seguem na tua direção. Ele compreende tudo o que sentes e o que possas vir a escolher; pensa em ti, segue a tua intuição mesmo que aches que estava errada, ela vai levar-te a sitios maravilhosos e a pessoas que vão ser parte da tua vida. Se a seguires, nunca vais querer voltar atrás no tempo, as decisões que tomares vão estar certas para ti e isso vai bastar. 

 

Vais ver-te sozinha muitas vezes: não o sozinha como te sentes agora, mas sozinha no mundo, e vais realmente estar. Vais ter de te compreender e aprender a viver contigo e com a tua intuição que te influência nas tuas decisões, e só quando te compreenderes é que vais sentir paz e vais conseguir estar sozinha.

 

Leva o tempo que precisares. Não preciso de te dizer para não desistires porque a persistência corre-te nas veias e a dor do caminho dificil, dá-te força e tão bem que sabe chegar ao topo e inspirar, só para descobrires que queres subir mais alto. 

Não te preocupes com família: não chores por eles. Tens o melhor avô, pai, melhor amigo e marinheiro, tudo na mesma pessoa. Mas não te percas por ele. Se estiveres bem, ele está bem. 

 

Não te preocupes com o tempo: tudo tem o seu tempo e tu terás o teu. Se não o sentes, não o forces. Irás encontrar um amor para a vida, "O" amor, e por ele, não desistas. Não o guardes no bolso, admite esse amor mesmo que não seja possível vivê-lo durante algum tempo. 

 

Não te preocupes com a religião: só tu te podes castigar, porque só tu sentes a tua intuição. E sabes tão bem o que é certo e errado, ainda que adores desafiar a tua própria consciência. 

 

Vai haver uma altura em que vais querer fechar os olhos. E vais querer desistir. Porque vais sentir que a dor de tudo é maior que a tua alegria... mas não é!

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Podes mudar, podes dizer que não, podes decidir por ti. Deves, até. Luta pelo que queres, pelo que amas. Fecha portas quando te sentires sufocada, não há problema nenhum.

 

Eu podia continuar a dar-te um discurso de força mas não é isso que precisas. Precisas de saber que podes confiar em ti mesmo que outros digam que não. Vais superar-te, vais atingir limites e vais conseguir chegar onde queres, mesmo que tenhas que dar uma volta maior. 

 

Precisas de saber que vamos chorar muito. Precisas de saber que nem sempre teremos o nosso marinheiro por perto e vai ser mais doloroso do que imaginas, durante mais tempo do que imaginas. Precisas de saber que ele vai olhar por ti, mesmo que não acredites, mas que o decidires nos momentos da tua vida, ele vai apoiar-te em todas as decisões.

 

Precisas de saber que mesmo que te sintas sozinha e que tenhas caminhado demasiado tempo para longe de casa, que vais regressar. E não tenhas medo de regressar a casa. É a tua casa.

 

Escrevo-te porque preciso de te dizer que estamos bem. Que vamos ficar bem. E que não quero que te assustes com nada, porque esta carta não é para ti, é para mim.