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Almas velhas

Slow living, tal como a vida deve ser, com base na vivência com um marinheiro, uma saudosa alma velha que mudou a minha.

15 de Maio, 2019

Temos formação de sobra: falta-nos é educação

Monica

Já alguém fez a Nacional 2? 

Em que tipo de veiculo? Quanto tempo? Contem-me tudo. 

Esta minha ausência de agora deve-se à minha viagem pela Nacional 2.

Entretanto, devo confessar, que para mim foi uma aventura e uma descoberta. Resumindo a história, a viagem foi feita de mota, de Lagoa para Mora, continuando pela N2 até Chaves e voltando pela Nacional 2 de novo para baixo. Foi uma senhora estafa que valeu imenso a pena. Juro que depois faço um post com fotos das paragens e afins (podem também ver no instagram), mas por agora, não é esse o ponto. 

 

No meio da serra, a 977m de altitude dei por mim a ver uma imagem imensa da natureza. Árvores vestidas com eras, serras pintadas de amarelo das giestas, neblina ao nível dos olhos que faziam as casas isoladas lá em baixo parecerem insignificantes. E nas curvas da serra, devagar para a mota não derrapar, respiro fundo, e penso como sobreviver num sitio tão maravilhoso pela ausência de barulhos citadinos, quanto assustador pela falta do típico "conforto" da cidade. 

E daí surge-me uma conversa interna, que se prolongou por grande parte da viagem. E uma das questões que me surgiu, é um dos muitos problemas sociais que temos, mas este chamado "reconhecer que estou errado". 

 

Vivemos do nosso ego. Inchadissimo e bem alimentado, vivemos bem quando está gordinho e farto. Mas quando acontece algo que se põe à frente da nossa razão absoluta, temos tendência a encher o peito e defender o nosso ego, mesmo sabendo que estamos errados (ou mesmo não tendo a certeza) e erguer um exercito de teimosia e certezas falsas. Porquê? 

Meus amigos, eu não sou exceção quando digo que as coisas que nos fazem mover como humanos é o orgulho, a certeza e o poder. Também os tenho. Mas nos últimos anos tenho vindo a tentar deixá-los de lado e dar a razão quando não a tenho, pedir desculpa quando devo e a agradecer quando reconheço a ajuda. O problema é que o orgulho, a certeza e o poder são 3 coisas perigosas para defender quando não se tem razão. E ainda mais perigosas quando não queremos abdicar delas.

Quando crescemos, aprendemos movimentos básicos à nossa sobrevivência: comer, andar, correr, agarrar em coisas, como se chamam, como se utilizam. Aprendemos a comunicar. 

Quando entramos na escola, nos 12 anos que se seguem de formação, aprendemos a ler, escrever, a história nacional e internacional, geografia e factos básicos sobre o mundo e o seu funcionamento. Aprendemos o antigo, o que já foi, aprendemos bases para começarmos a descobrir por nós próprios, outras coisas. Aprendemos coisas que deveriam aguçar a nossa curiosidade.

Durante toda a nossa formação - porque estamos a ser formados e não educados - não aprendemos as leis do nosso país, de cidadania, o que as pessoas chamam de "óbvio", "bom senso", "educação". Ora se não somos educados, não sabemos educar, como esperamos viver em sociedade? 

Como esperamos que ao atravessar a estrada, eu vá passá-la numa passadeira? 
Mas eu sei que se for para a passadeira, passo em segurança. Mas também sei que fica a 30metros e custa-me menos esperar que o último carro passe e dar uma corrida. Ora se sabemos para que serve, se serve o propósito, porque arriscamos a nossa segurança e a dos outros ao passar fora?

Já vi pais com miúdos ao colo a passar fora da passadeira. Já soube de miúdos que foram atropelados. Sei também que quando nos aproximamos de uma passadeira temos tendência a esperar que parem. E há quem não pare. Porque será? Sabe? Claro que sabe, não é ignorante, é só mal educado.

Não vejo ninguém a repreender ninguém. Vejo toda a gente escondido atrás de um ecrã e a fazer valer o poder e a certeza que tem para encherem o seu orgulho. Porque uma batalha ganha nas redes sociais já é razão para ter forças para levantar amanhã de manhã. Que bom. 

 

A desculpa que damos "sou só eu a fazer isto, não faz mal nenhum" não é válida. Todo o resto do mundo teve a mesma ideia, por isso, podemos parar de fingir que somos seres ignorantes e aprender a viver em comunidade? 

Podemos valer a educação que achamos que temos e pô-la em prática? 

Se cada um varrer a entrada da sua casa, teremos uma rua limpa.

Se cada um estacionar dentro das linhas, temos lugares para todos. 

Se cada um cumprir o seu dever de cidadania, teremos uma comunidade.