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Almas velhas

Slow living, tal como a vida deve ser, com base na vivência com um marinheiro, uma saudosa alma velha que mudou a minha.

08 de Fevereiro, 2019

Ep.1 - Fogo que arde, mas que passa

Monica

João

 

Não me acomodo com nada. Quando o trabalho se torna rotina, mudo, quando as mulheres se acomodam à minha presença, deixo-as e quando consigo andar nos lugares de olhos fechados, parto para outra cidade. Nasci à beira mar, mas pertenço ao mundo.

 

Já vivi uma data de amores, mas nenhum me fez ficar. Não sei o que procuro, se é que procuro algo, mas a Maria tinha tudo: cada vez que a via era como se alterasse os meus dias, sentia que via os lugares com outra luz e era a sensação que procurava, em cada mudança, em cada virar de página. Cada palavra de afastamento dela era como um “sim” para mim, aquela dança do “vai embora e traz-me de volta com um olhar” era um chamamento que ela sentia o mesmo que eu.

 

Sempre soube que estava condenado a amores breves, a fogos acesos, a incêndios descontrolados, nunca pensei nas consequências de ir, porque na verdade não havia nenhuma: as mulheres que deixava, acabariam por ser amadas e felizes com outros, os empregos que deixava contratavam outros empregados e os lugares…bem, o tempo que tratasse deles, porque quando voltava a passar cada esquina daquela cidade, queria que falassem comigo, queria sentir saudades e criar novas memórias ali.

 

Quando vi a Maria pela primeira vez, contrariou tudo o que penso e fez-me lembrar o fogo: quando chega, a sua presença toma conta do lugar e torna-se contagiante à medida que passa.

 

Arrebatou-me de tal maneira, que quis tê-la para mim, a mulher que sempre sonhei, acabou por cair nos meus braços e eu acabei casado.

 

Meses depois de casarmos, já a monotonia da rotina fazia parte das nossas vidas, Maria traz-me uma notícia que me fez rever o fogo dela: esperava um filho meu.

 

Não sei como reagir; sei que irá mudar a minha vida e que vai ser a melhor coisa: ensinar o meu filho a jogar à bola, parecidíssimo com o pai, vou mostrar-lhe todos os sítios por onde passei e todos os cantos que me conhecem. Vou mostrar ao meu pai que não sou um caso perdido, que tudo o que faço não é de impulso. Quero ver ele dizer-me agora que sou um irresponsável.

 

Com o passar do tempo, o que mais temo, instalou-se: o trabalho é o mesmo de sempre, faço o mesmo todo o santo dia, chego a casa e faço o mesmo e só oiço a Maria reclamar que está cansada. Gravidez não é doença e eu trabalho o dia todo. Acho que ela faz de propósito para me irritar e usa a desculpa do bebé para tudo. Pois bem, só quero chegar a casa, depois do mesmo raio de dia de trabalho e ter o jantar feito, sentar no sofá descansado, em silêncio e ver o que me apetece na televisão. É pedir muito?

 

Não sei o que ela faz para se sentir tão cansada. Eu é que trabalho, ela pede-me para fazer as coisas eu faço, depois está mal, depois diz que não é assim, que estou a fazer mal e fica chateada. Quem devia ficar chateado era eu.

 

Quando Maria chegou praticamente à reta final, continuava com aquele corpo fantástico e mal se notava a barriga. Se não soubesse, diria que ainda lhe faltavam uns cinco meses e não apenas um.

 

Hoje, estou cansado. Farto de trabalhar e só quero chegar a casa e jantar. Maria sabe o que gosto ou não gosto. Odeio arroz branco. Sei lá, não tem sabor. É só uma coisa pastosa que se difunde com o fundo do prato. O arroz deve ser cozinhado com outras coisas: tomate quando não é possível acompanhar de salada, ervilhas quando estamos fartos de comer com ovos escalfados ou berbigão quando há falta de tempo para fazer uma rica mariscada.

 

Chego a casa, cansado, estoirado, farto da mesma vida e aí vem Maria. Dá-me um beijo e diz-me que o jantar está na mesa. Fico surpreso, nos últimos tempos tenho de reclamar para ter o jantar pronto a horas. Qual é o meu espanto quando vejo arroz branco na mesa: passo-me da cabeça, no dia que parece que está tudo a começar a correr bem em casa, acontece-me isto. Ela sabe perfeitamente que odeio arroz branco. Grito com ela, ela sai calmamente, vai à cozinha e regressa com um frasco na mão.

 

- O que é isso?

- Já vais ver – diz ela despejando o frasco no arroz – é corante verde. Não gostas de arroz branco, pronto, já não está branco.

 

Enfureço-me. Não percebo porque fazem de mim palhaço. O meu trabalho é servir às mesas e hoje tive de lavar loiça. Porque não contratam alguém para isso? E agora esta. Maria ri-se na minha cara. Acolhi-a, dei-lhe um lar e um filho e parece que nada do que faço presta. Saiu enfurecido e decido que ela vai aprender. Acabo à porta da minha ex, dou por mim a pensar que raio ando a fazer, não posso dar motivos à Maria para me atacar com algo e acabo no sofá do Pedro, amigo meu.

 

No dia seguinte, Pedro acorda-me e vou trabalhar. Não quero saber como está Maria, vou trabalhar e esperar que ela esteja arrependida ao final do dia, quando voltar para casa. Amanhã é feriado e tínhamos combinado irmos até à Ponta da Piedade de barco. Pois, não vai acontecer. Ela tem de aprender que não é tudo à maneira dela.

 

Chego ao trabalho e dão-me a notícia que Maria está no hospital. Sou, prematuramente, pai de uma menina. Uma menina? O universo só pode estar a gozar comigo. Olho para o meu colega e amigo de longa data, que acaba de me dar a notícia e digo-lhe:

 

- Tenho trabalho.