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Almas velhas

Slow living, tal como a vida deve ser, com base na vivência com um marinheiro, uma saudosa alma velha que mudou a minha.

11 de Fevereiro, 2019

Ep. 2 – Ao ritmo da música

Monica

Maria

 

Adoro dançar sozinha, com os meus pensamentos, de olhos fechados ao ritmo da música, e começo a sentir-me desconfortável quando eles acham que isto sou eu a provocá-los. Não, amigos, isto sou eu a ser livre. Uma boa música, uma dança no meio da pista é como um banho de espuma para uns ou um copo de vinho ao luar para outros – é o meu momento, onde liberto todas as energias más que acumulei durante o dia: as queixas que recebi daquele cliente, a minha gorjeta que o patrão ficou com ela, o bom dia que tenho de arrancar da minha melhor amiga, que de manhã não pode ver pessoas.

 

Dançar é vida, é revitalizar, mas eles pensam que tem o direito de me vir incomodar, perturbar o meu ritual e que os chamo com o meu corpo. Se soubessem a verdade, que a minha dança equivale a 2 cervejas para eles, deixavam-me em paz.

 

A primeira vez que o João foi ao bar que frequentava, senti os olhos dele em mim, a noite toda. Com o peito cheio de ar, veio ter comigo e balbuciou umas coisas quaisquer que me fez rir na altura e pensei “olha-me a lata deste caramelo”. Adorava a sua intervenção e a maneira como me protegia, a partir do primeiro momento, meio que possessivo, mas eu sabia desarmá-lo apenas com algumas palavras. Eu via que isso o deixava furioso e eu adorava provocá-lo. Toda a gente nos conhece numa cidade pequena, e toda a gente sabe o que se passa mesmo que não estejam no local. Depressa se soube desta nossa disputa, desta dança, mas eu não me importo com o que as pessoas pensam: tenho o meu orgulho e a minha consciência tranquilíssima.

 

A presença do João tinha-se tornado uma exigência às quintas-feiras no LionsHeart e quando sabia que ele tinha ido noutro dia da semana que eu não estava lá, sentia um orgulho nervoso, como um prémio que sabemos que já ganhamos. E ganhou, casamos 8 meses depois do primeiro beijo.

As coisas começaram a ficar sérias demais. A partir do momento que me deixei levar por aquele escorpião, as coisas não voltaram a ser iguais. Meses depois, o meu momento de relax teve de ser cancelado, não podia mais sair nem dançar, porque o João achava sempre que eu me estava a fazer e eles não paravam de olhar. Eu era dele e eu gostava da maneira que ele se impunha, até ficar grávida e tanto o nascer do sol como o seu por, não tinham importância.

 

O João reclamava de tudo: que não estava bem, que antes era melhor, que não queria estar em casa, mas quando eu perguntava se queria sair para beber um copo e dançar, ele retraía-se: era como se a vontade passasse de repente. Nunca compreendi bem o humor do João. Costumávamos ficar a falar e a rir até às tantas e agora quando faço uma piada cai o Carmo e a Trindade. Eu não vou deixar que ele tire a minha alegria. Na outra noite, fiz arroz branco e ele rebentou comigo. Nunca o vi tão furioso só por causa de um arroz. Já podia ter dito que não gosta de arroz branco, e quando me gritou isso, só me lembrei do corante verde que tinha ficado do bolo mármore maluco que fiz: meio verde, meio chocolate. Fartei-me de rir ao fazer aquele bolo, mas não fiquei nada contente com a reação do João quanto ao arroz. E nesse dia, o João não dormiu em casa e no dia seguinte, nasceu a Isa.

 

Isa nasceu prematura e foi amor. Amor por esta miúda que nasceu num dia em que não era suposto nascer. Talvez fosse nervoso, talvez ela nasceu do acumular de stress que é aturar o João. Mas ela é minha, só minha. Pedi para ligarem para o trabalho do João: não faço a mínima ideia onde ele dormiu, mas preciso dele. E ele não veio.

 

Tudo caiu por terra: as minhas discussões com o João, os amuos dele, tudo. Passamos uma borracha quando a Isa nasceu.